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Como educar uma criança para que ela goste de dirigir e seja uma boa motorista no futuro

Qual é a sua relação com o trânsito? Você é daquelas pessoas que adora a sensação de liberdade de pegar a chave do carro, escolher uma música e assumir a direção? Se você demonstra prazer – e atenção às regras! – quando dirige, saiba que já está contribuindo bastante para que sua filha ou filho torne-se um bom motorista no futuro.

As crianças, todos sabemos, aprendem muito mais pelo exemplo dos adultos do que pelo discurso. Por outro lado, todos também sabemos que cada pessoa tem uma personalidade única – e formação de um adulto não é um processo que segue fórmulas exatas: você deve conhecer irmãos que acabaram se tornando pessoas muito diferentes, certo? Ou seja, ter bons exemplos para se espelhar, de adultos que gostam de estar ao volante e sejam motoristas responsáveis, é algo positivo, mas não é tudo.

Ter familiaridade desde cedo com o universo dos veículos também é útil: brincar de carrinho, por exemplo, além de desenvolver a noção de espaço e direção, pode aproximar a criança de temas como a sinalização e as regras de trânsito. Veja cinco benefícios dessa brincadeira.

Quando já consegue andar em um triciclo, uma bicicleta ou até em um carrinho motorizado, habilidades importantíssimas estão sendo desenvolvidas: “Andar de bicicleta é divertido, mas andar em grupo é ainda mais. Para que consigam andar em grupo, as crianças precisam estabelecer regras, vão fazer acordos para que todas consigam andar, sem que se batam”, explica a psicóloga e coach Isabela Cotian, ressaltando que, desde cedo, a noção de como se locomover em grupos é estimulada com brinquedos como skate, patinete, patins e outros veículos. Mesmo que não estejam seguindo leis e regulamentações oficiais, elas vão descobrindo e criando algumas regras: que podem ir para um lado e não para o outro, que precisam cuidar para não machucar o outro, que precisam estar atentas para que não sejam atingidas pelo outro – enfim, noções que serão úteis mais tarde.

 

Desenvolver a atenção e a presença

Essas são brincadeiras que também estimulam a criança a estar presente e atenta ao próprio deslocamento. Se muitas vezes nem os adultos resistem a dar aquela olhadinha na tela do celular quanto estão ao volante, como esperar que as crianças que convivem com tantas telas desde o nascimento consigam? Por isso, a psicóloga comenta que é tão importante criar oportunidades para que as crianças se envolvam com brincadeiras que exijam atenção e presença. Esportes, lutas, brincadeiras de bola que peçam reação rápida: tudo isso ajuda a criança a se conectar com o que ela está fazendo naquele momento.

“Se eu estou presente enquanto dirijo, estou atenta ao que estou fazendo no carro: se estou mudando de marcha, se o sinal está fechando, se há pessoas correndo. Eu estou conectada comigo, percebo minhas emoções e o entorno”, comenta Isabela. Quanto mais a brincadeira usar todos os sentidos, mais presente a criança vai estar. E mais provável que ela saiba lidar com o nível de atenção que o trânsito vai exigir quando ela assumir o volante.

Aproveitar as oportunidades

Isabela ressalta a importância de iniciativas que levam educação sobre o trânsito para crianças. Quando já conseguem entender melhor as sinalizações e as regras, as crianças maiores podem até cobrar dos pais que sigam corretamente as placas, por exemplo: “Não é necessário esperar que ela tenha idade para dirigir para começar a ensiná-la. Elas podem ter contato desde cedo. Podem participar de atividades educativas que simulam situações, que tenham sinalizações, podem ir a lugares onde a criança pode conduzir um kart ou um carrinho motorizado. Se a criança demonstra interesse, por que esperar? Claro, em cada fase de desenvolvimento vai ser possível realizar uma atividade diferente”.

 

Sem medo de estar ao volante

Além de atenção constante, familiaridade com o carro e com as leis, assumir o volante exige confiança (em si e nos outros!). Na página Petrobras De Carona com Elas, recebemos muitos comentários de mulheres que têm (ou tinham) medo de dirigir, por duvidarem de si mesmas ou não se sentirem seguras no trânsito. O que podemos fazer para que as meninas cresçam com mais confiança, para que elas cresçam sabendo que podem, sim, dirigir o que quiserem?

Ter bons exemplos é importante, mas algumas vezes até situações desfavoráveis podem acabar impulsionando a menina a buscar a sua independência (como dissemos lá em cima, o desenvolvimento de cada pessoa é diferente!): “A minha mãe sempre foi muito segura, muito autônoma, dirigia até trator, nos levava para todos os lugares, era muito centrada, andava com três crianças, nunca levava multa”, conta Isabela. E complementa: “No meu caso, o prazer de dirigir veio pelo exemplo dela. Mas não foi fácil. A minha irmã passou na primeira prova. Para ela era tudo muito simples. Eu fiquei muito nervosa e não passei da primeira vez que tentei”.

A psicóloga conta que precisou pedir ajuda à irmã para ensiná-la antes de tentar pela segunda vez. Hoje, orgulha-se de poder ser para a filha de 3 anos o mesmo exemplo de independência que recebeu da mãe. “Mas pode ser o oposto: eu tive uma cliente que teve uma mãe que não dirigia, que era muito dependente. Quando teve um filho, ela quis fazer aquilo que a mãe dela não havia feito”, explica.

A construção da confiança em si mesma, pode parecer estranho, passa por reconhecer que os erros e as falhas fazem parte da vida. Não conseguir passar na prova da primeira vez significa que é melhor desistir? É claro que não! Você conhece alguém que aprendeu a andar de bicicleta sem cair nenhuma vez? Isabela reforça o quanto é fundamental incentivar a menina a experimentar, mesmo sabendo que ela pode levar alguns tombos. A superproteção diminui a tolerância às frustrações.

“Incentivar é deixar a criança um pouco mais solta para ela ver que ela vai cair quando pisar em um buraco, por exemplo. Cair faz parte da aprendizagem. Vejo que algumas mães, por medo que a criança caia, não as deixam andar de bicicleta. Mas o importante é usar a queda como reflexão, explicar: ‘você vai cair muitas vezes, mas independente disso, vai aprender a andar’. Não é dizer que não foi nada, é perguntar: ‘você se machucou? O que pode ter acontecido para você cair?’ É a partir disso que a criança vai aprender a refletir sobre os próprios erros, sobre os próprios limites. Não tem como aprender sem errar. Não é para dar bronca, mas também não ajuda se for superprotetora”, explica Isabela.

Crescer confiante de que pode (e vai!) ser uma ótima motorista, portanto, não é uma questão de se imaginar como uma motorista que vai dominar o carro na primeira tentativa, que vai passar na primeira vez que fizer as provas. Diferente disso, crescer confiante de que pode assumir o volante é reconhecer as próprias dificuldades e, não importa quantas vezes for necessário tentar, saber que um dia elas serão superadas.

Uma dica final da especialista é bastante simples: se você convive com uma criança e acredita que seria importante que ela ou ele queira se tornar um bom motorista no futuro, pense na sua própria experiência. O que você gostaria de saber desde pequena e que acredita que teria um impacto positivo quando chegou a sua vez de assumir a direção? Aproveite a reflexão e conte pra gente nos comentários!

 

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