No Volante

Como vencer o preconceito que descobrimos dentro da gente?

Não é à toa que a maioria das pessoas que sofrem com o medo de dirigir são mulheres. Na rua ou dentro de casa, muitas cresceram ouvindo que carro é como uma extensão do homem – e que mulher é “um perigo” no banco do motorista. Para muitas, isso foi tão repetido que parece uma verdade. Ou seja, ideias preconceituosas como esta, que às vezes parecem não passar de piadinhas, acabam prejudicando muito a vida de muita gente.

Se você duvida da própria habilidade porque sempre ouviu que mulher e direção não combinam, saiba que sua história não é única. E mais importante: você pode, sim, superar esse medo. Afinal de contas, está na hora do preconceito perder seu espaço na vida de cada mulher e na sociedade, certo?

Reconhecer a força feminina é fundamental. A psicóloga Cláudia Ballestero, especializada em fobia de direção, identifica que 94% das pessoas que procuram ajuda são mulheres: por isso, faz parte do tratamento recuperar a confiança no poder feminino. E isso não é apenas um discurso motivacional. São os dados que comprovam que, na verdade, as mulheres são motoristas muito mais cuidadosas: elas  cometem menos infrações graves, se envolvem em menos acidentes com mortes, ganham mais desconto das seguradoras e são o principal público das montadoras de carros. Cláudia costuma apresentar essas informações a suas pacientes, para começar a desfazer a ideia de que a direção não é para elas.

É claro que o tratamento envolve muita prática, mas não dá para ignorar os efeitos prejudiciais que tantos comentários negativos acabam gerando. Parar de dar ouvidos a eles é uma etapa importante. Nem sempre é fácil: com média de idade de 42 anos, muitas cresceram com mães que não dirigiam, ou porque não sabiam ou porque o pai não deixava. Ao chegar na auto-escola, encontram instrutores ruins, que reforçam comentários negativos sobre mulheres e direção. De tanto ouvir clichês e comentários preconceituosos, muitas acabam duvidando de si mesmas. Pensam que, por serem mulheres, têm menos habilidade.

Vale refletir sobre o alerta da pesquisadora Joanna Burigo, fundadora do site Casa da Mãe Joanna e Mestre em Gênero, Mídia e Cultura: “Essas histórias de que mulheres não sabem dirigir são apenas histórias, não são uma verdade. Quando a gente depara com histórias como estas repetidas na nossa cabeça, o primeiro passo é questionar como essas histórias chegaram ali para começo de conversa. É preciso um esforço, você precisa contar sua própria história. Ressignificar aquilo que foi construído a partir dessas falácias. Se ouviu a vida inteira ‘mulher no volante, perigo constante’, você encara esse medo. Encara se é mesmo uma limitação sua ou se é algo imposto”.

Esse questionamento, que vale não apenas para a questão da direção, está alinhado à parte do tratamento que Cláudia emprega com seus pacientes. A psicóloga leva as mulheres a olharem para suas histórias de vida: muitas são bem sucedidas no trabalho, conduzem as decisões em casa, organizam a rotina dela própria e dos outros. “Se você é assim na vida, por que não seria assim na direção?”, ela pergunta.

Se você está em uma situação semelhante, faça essa reflexão sobre a sua vida. Provavelmente, você vai perceber que pode, sim, dirigir. E que pode muito mais que do que isso: “A gente vê mulheres chegando de cabeça baixa, desalinhadas. E vê elas saindo de batom, cabelo novo, roupa diferente, pensando ‘eu sou igual a todo mundo, eu posso como todo mundo’. E aí elas percebem que têm esse poder em outras áreas da vida: ‘eu posso voltar a estudar, fazer uma dieta, sinto que sou capaz de aprender computação!'”.

É claro que esse processo não acontece da noite para o dia. Para a coach Patrícia Wallau, o primeiro passo é realmente a consciência: “Para qualquer mudança que eu queira fazer, eu primeiro me pergunto: o que é meu aqui nessa história? O que eu realmente sinto? É importante separar o que é meu do que é dos outros: por exemplo, o que eu ouvi do meu pai? O que vem de outras pessoas e que está me limitando?”.

Assim é o começo de um caminho de transformação pessoal e, no meio dele, a gente também pode perceber o impacto que os nossos comentários têm sobre outras pessoas: “A gente tem o papel de não fazer isso com outras mulheres, de parar de semear isso. De parar de dizer ‘só podia ser mulher’ quando vê alguém sendo imprudente. De conscientizar nossos filhos, sobrinhos, irmãos. Espero que essa próxima geração, que vem depois da gente, possa rir disso”, reflete Patrícia.

A gente também espera e acredita que cada mulher que ocupa seu espaço na rua, no banco do motorista, na cadeira de CEO, no volante de um caminhão é um avanço que faz o preconceito perder seu espaço. Você tem uma trajetória assim para compartilhar? Conte pra gente e conheça a campanha A Rua é de Tod@s, um movimento para transformar as ruas em um ambiente mais democrático, inspirador e justo para todo mundo.

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