Ao vencer o medo, ela decidiu que nunca mais deixaria alguém matar seus sonhos

Marli Lopes, 42 anos, ficou seis anos sem dirigir e hoje dá aulas para motoristas

Quem não tem um sonho esquecido, quase adormecido? Os outros dizem que é impossível, e nós ouvimos o que eles dizem – mas a verdade secreta é que ainda acreditamos, lembramos com cuidado e aguardamos a oportunidade certa para trazê-lo à realidade. A pedagoga Marli Lopes, de 42 anos, é a prova de que esperar não é desistir: ela ficou seis anos sem dirigir. Hoje, tem carteira de habilitação da categoria D (ônibus), pilota kart nos momentos de lazer e é professora de legislação no SENAT (Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) em Belo Horizonte (MG). Ela sempre foi apaixonada pelo trânsito, mas em 2004 perdeu a coragem de assumir o volante. E achou que nunca seria capaz de retomá-lo.

É que, na primeira saída de carro após tirar sua habilitação, deixou o motor do carro apagar três vezes. Na terceira, o marido e o cunhado, que estavam de passageiros, disseram que seria melhor Marli desistir, já que ela poderia causar um acidente. Nervosa, a motorista entregou as chaves para o marido, voltou a pé para casa e passou seis anos sem retomar a direção. “Aquilo me fazia sofrer. Eu chorava. Achava que nunca mais conseguiria fazer nada na vida. Dirigir era um sonho que eu tinha”, conta Marli. Na mesma época, a escola que ela havia fundado com o objetivo de atender crianças carentes foi à falência: “Fiquei derrotada”.

Reviravolta: do medo de dirigir ao sonho de aprender a conduzir caminhões

Ninguém imaginaria a reviravolta que viria a partir de 2010. A necessidade econômica fez Marli retomar as aulas de direção: já que trabalhava de recepcionista em um Centro de Habilitação de Condutores, a pedagoga aproveitou para enfrentar o antigo medo. Como foi sentar no lugar do motorista e, na primeira aula depois do trauma, encarar o trânsito? “Eu chorei! Aquilo para mim foi a vida. Eu falei pra mim: nunca mais vou deixar ninguém matar os meus sonhos!”

E não deixou mesmo: passou de recepcionista a instrutora e, hoje, não se intimida diante de turmas geralmente repletas de homens condutores de veículos pesados, de ônibus ou de veículos de emergência. O próximo passo: conquistar a categoria E na carteira de motorista. Mesmo que seu cargo não exija a mudança de nível na habilitação, ela considera importante ter um pouco da experiência prática que seus alunos enfrentam nas estradas.

Sua vida profissional, hoje, é motivo de orgulho da família: “Eu recebo homenagens das minhas turmas. Estou casada há 25 anos, e meu marido sente muito orgulho de mim, inclusive fala de mim para os colegas. Ele só não gosta muito quando eu lembro daquele momento, lá em 2004”, Marli revela entre muitas gargalhadas, com aquele sotaque mineiro que melhora qualquer história. Ninguém acreditaria, naquela época, que sua vida seguiria esta trajetória: “Sou o tipo de profissional que você olha e diz: quem te viu, quem te vê!”.

Seu amor pela direção é tão grande que nem os congestionamentos são capazes de incomodá-la. “Sou meio maluquinha. Eu aprendo na estrada. Eu analiso meu comportamento e o das outras pessoas. Me dá um prazer muito grande. E adoro passar por alunos no trânsito. Acho muito gostoso.”

Superando barreiras: as mulheres contarem umas com as outras é fundamental

A transformação não foi fácil. Marli é uma fã engajada da página De Carona com Elas. Para ela, as mulheres contarem com o apoio umas das outras é fundamental para encarar desafios como o medo de dirigir. “Outras pessoas fazem você duvidar de si mesma, da sua capacidade. Hoje, quando vejo uma mulher nesta situação, tenho vontade de abraçá-la e trazê-la para perto de mim. Eu sei que a mudança não é fácil, porque você precisa lutar contra tudo o que disseram de você”.

Marli conseguiu vencer suas barreiras ao perceber que teria duas opções: permanecer com medo ou enfrentá-lo e aproveitar novas oportunidades na vida. O que foi ainda mais assustador que o medo de dirigir? A ideia de que, no futuro, bateria o arrependimento por não ter se dado uma segunda chance como motorista. Ao realizar o próprio sonho, ela hoje é uma professora preocupada em formar motoristas profissionais conscientes de seu papel como cidadãos – além, é claro, de inspirar outras mulheres a conquistarem seus espaços. De kart, carro, ônibus ou caminhão, não existem mais trajetórias que Marli não possa percorrer.

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