Corações partidos, superação, amizades, amores de verão: tem algo mágico em viajar

Viajar é uma forma de abrir portas para possibilidades que no cotidiano você negaria.

Da série

Enquanto escrevo para o Petrobras de Carona com Elas, lembro de quando comecei a planejar minha viagem para Cuba e todas as inseguranças a respeito de dar conta de ir sozinha a um país em que eu não dominava a língua e com comunicação limitada – em 2013, não havia wi-fi por lá, e o celular só serviu como câmera fotográfica. Mas a certeza de que muitas histórias teriam início junto com a viagem me fez seguir em frente.

O plano de viagem me ajudou a superar a morte inesperada da minha Batian (maneira como chamamos as avós em japonês). Todo o cronograma da viagem – pesquisas sobre cidades onde gostaria de ir, meios de transporte e as aulas de espanhol online – me ajudaram a tranquilizar a mente quando tudo ao redor parecia desmoronar.

Com um guia na mão, um dicionário na mochila e algumas dicas de amigos, aterrissei no país de Fidel cheia de medos, porém obstinada a conseguir revirar aquela Ilha. Os passeios turísticos eram ótimos, mas meus planos eram conhecer os locais e ouvir suas histórias. E pra conseguir experimentar a atmosfera local é importante explorar possibilidades para além das previstas nos guias de viagem. Eu, por exemplo, optei por caminhar pelas ruas mais calmas do bairro e provar um drink de cada bar. E foi assim que conheci o músico Yusé, enquanto passava por uma viela onde ele ensaiava com seu trompete. Comprei uma bebida, sentei ao lado dele e assim iniciamos uma amizade, ele me apresentou para alguns amigos e me ensinou alguns passos de salsa.

Viajando sozinha, não há ninguém pra se comunicar com os outros por você. Então, quando eu precisava de alguma informação, recorria com frequência ao pessoal do bairro, desde as crianças que jogavam bola nas ruas até os comerciantes locais. E quando você conversa com as pessoas, acaba fazendo amizades. E, de quebra, aperfeiçoando o idioma. O espanhol tímido dos primeiros dias rapidamente se transformou em um espanhol com acento cubano avançado.

O domínio da língua me deu coragem para entrar em um ônibus para a província de Matanza, cidade pequena e pacata que fica ao lado da famosa Varadero, conhecida pelas lindas praias. Dias depois, embarquei em um carro compartilhado com destino a Santa Clara. Aprenda uma coisa: quando se compartilha espaço com cubanos é impossível ficar em silêncio. Cada detalhe da estrada era explicado, o que tornou mais rico esse trecho da viagem e me fez chegar na cidade famosa por seus locais importantes da revolução cubana e o mausoléu do Che Guevara.

Deixei Santa Clara rumo a Remédios em um carro da década de 50 que consegui pedindo carona do jeito mais tradicional possível: com o dedão levantado na beira da estrada. É nessa hora que a gente se aproxima de pessoas que nunca pensou em conhecer na vida.

Um professor de filosofia aposentado cubano, um vendedor de sorvete, uma brasileira, um holandês e uma pausa na estrada para observar uma baleia enquanto comia a maior paçoca do mundo depois de discutir algum jogo de futebol que havia passado na tv no dia anterior é uma das lembranças saudosistas que tenho desse período. Troquei alguns e-mails com eles quando voltei ao Brasil, mas não mantivemos a proximidade que aquelas horas na estrada nos proporcionou.

Depois da aventura pela estrada, cheguei a Trinidad. Era a vez de superar mais um de meus medos e encarar uma aula de mergulho, a cinco metros de profundidade e sem saber nadar. Ao retornar a Havana, fiquei em um quarto compartilhado com quatro inglesas que me adotaram como guia. Aceitar alterar um pouco de sua rota para encaixar novos amigos só agrega mais diversão.Foi pensando nisso que fui com elas naquela noite a um bar chamado Submarino Amarillo, onde conheci minha grande paixão de verão.

Com ele passei minha última semana em Cuba experimentando essas coisas malucas que só acontecem em filmes. Tomamos café da manhã no Hotel Nacional, onde os mafiosos americanos costumavam se reunir. Andamos de mãos dadas pelo El Malecón e dançamos salsa na chuva. Fizemos declarações e promessas enquanto olhávamos o pôr do sol do nosso quarto. Discutimos um futuro que não tínhamos e esquecemos completamente o que nos fez chegar lá com o coração pesado. Por sorte, amizades de verão duram mais que amores e ainda recebo novidades vindas do Velho Continente.

Se Cuba foi um desafio para a mente, minha próxima parada, a Bahia, foi um desafio físico intenso. Em outubro deste ano fui a Salvador para conhecer a Casa de Oxumarê, um dos terreiros de Candomblé mais tradicionais do Brasil. De Salvador fui de barco para Morro de São Paulo, lugar paradisíaco e repleto de vistas lindas. Foi o descanso perfeito para o destino seguinte: a Chapada Diamantina.

Por um desencontro de informações fiz uma verdadeira via crucis pelo interior da Bahia até chegar ao meu destino final: Lençóis. Chegando lá me juntei a um grupo de mulheres – cada uma vinda de uma parte do mundo – para conhecer as cachoeiras que não necessitam de guia. Sempre há pessoas em viagens solos a fim de fazer os mesmos trajetos, estar aberta a novas companhias é determinante para novas amizades. Na volta marcamos com uma agência os passeios que exigiam fôlego e preparo físico, mas ao retornar ao hostel torci o pé. Pensei em desistir, mas mantive os planos com o apoio do grupo.

O trajeto mais complicado foi uma difícil caminhada ao topo do Morro do Pai Inácio. Quase desisti no meio do caminho por causa da dor, mas terminei o percurso com lágrimas nos olhos e feliz por ter conseguido superar aquela barreira física e psicológica. Compartilhei essa vitória com cada uma daquelas pessoas que participaram da experiência comigo. Foi incrível! Ainda nesse fim de ano, aguardo a visita de uma das mulheres que conheci na Chapada, continuaremos o intercâmbio de informações aqui.

Essas duas aventuras me fizeram ter certeza de que posso ir para onde quiser e tirar as melhores experiências de viagens solo – mas não solitárias. Há algo mágico em viajar. É uma chance de olhar para si e encontrar detalhes que sempre passam desapercebido. É uma forma de abrir portas para possibilidades que no cotidiano você negaria, mas que rendem histórias para serem contados para o resto da vida!

Thaís Mayume Higa
30, paulistana, editora de vídeo, organizadora do festival PopPorn onde busca debater a sexualidade positiva por meios multidisciplinares.
Facebook: /Mayume
Blog: http://Mmayume.wordpress.com

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