Ela acredita que a mecânica é encantadora e é para tod@s

Thais Roland largou a carreira na área de computação por causa da paixão por carros

Sabe quando você ouve aquela amiga contar sobre uma nova paixão, quando ela não consegue disfarçar os olhos brilhando e a voz cheia de entusiasmo? Quanto Thais Roland fala sobre carros, é a mesma coisa: “A mecânica é encantadora. Se você já tem alguma afinidade, na hora que entra na área, percebe que aquilo é lindo! Você vê um carro que não funciona chegar na oficina e depois sair andando certinho. Saber que foi você que fez aquilo é maravilhoso!” Ela acredita que entender um pouquinho de mecânica está ao alcance de tod@s, por isso criou o canal Coisa de Menino Nada no YouTube.

Thais atua como consultora automotiva, além de promover conteúdo educativo sobre mecânica em seu site. Ela é uma das participantes da campanha A Rua é de Tod@s, criada pela Petrobras De Carona com Elas para estimular uma transformação: que a rua seja um espaço democrático, justo e inspirador para tod@s. Você também pode fazer parte deste movimento! Saiba mais.

Se, no dia a dia do trabalho e relacionamento com colegas e clientes, encontra um ambiente que considera respeitoso e seguro, o mesmo não pode ser dito da internet. Ela conta que já está acostumada a receber comentários preconceituosos – e criou até uma estratégia para combatê-los: “Atrás do computador, o pessoal fica valente. Mandam comentários ofensivos, agressivos. Quando vejo que é ofensivo mesmo, eu deleto. Se ele está só alfinetando, deixo lá, não respondo. Aí as pessoas vêem que não dou bola”. Ela também percebe que alguns homens colocam em dúvida seus conhecimentos sobre mecânica – alguns destes, Thais não deixa barato. Responde de maneira técnica e procura elevar o nível da conversa. “Acabei fazendo até alguns amigos assim”, ela conta.

O nome do canal, Coisa de Menino Nada, também tem muito a ver com a história profissional da Thais, que com 17 anos decidiu cursar Ciências da Computação. A carreira na área da informática durou cerca de 15 anos. Ela sempre teve intimidade com computadores. Para Thais, mexer com ferramentas e máquinas nunca foi “coisa de menino”. Observava, encantada, o avô consertar os carros dos vizinhos depois de se aposentar. “Eu sou da época em que as pessoas mexiam muito nas coisas em casa. Meu pai, meus tios, todo mundo consertava as próprias coisas. Eu voltava da escola e ficava com meu avô. Ele pintava, polia, e eu estava sempre grudada nele. Ficava do lado e fui pegando gosto”, lembra.

Hoje, Thais tem 38 anos, um namorado que também é da área (“Para namorar comigo, tem que ser mecânico também”, ela brinca), um cachorro que, segundo ela, “parece uma estopa suja” e um outro amor que é a realização de um sonho de infância: um Maverick. O carro tem até nome: Damien ou, para os íntimos, Damião. “Minha primeira tatuagem foi o Maverick. Depois de um mês, comprei o carro. Uso um anel preto no dedo pra dizer que sou casada com ele”, diverte-se Thais. O sonho começou com um brinquedo de criança: um caminhãozinho-cegonha de plástico que ganhou e que vinha com quatro veículos dentro. Entre eles, um Maverick verde.

A transição profissional que poderia ter provocado alguma insegurança em qualquer pessoa de 32 anos com uma carreira já consolidada não foi tão problemática para Thais. “Foi um pouco assustador porque é duro começar do zero de novo, mas depois de construir uma carreira inteira, você já sabe os passos que tem que dar, já tem um amadurecimento”, ela diz. Cansada da vida em um escritório, decidiu em 2011 fazer um curso de mecânica no SENAI apenas “para brincar”. Ninguém imaginava, nem ela, que aquele seria o primeiro passo de uma grande transformação. “Em 2012, quando saí da empresa em que estava trabalhando e fui fazer estágio em uma oficina, me apaixonei. Nunca mais parei. E nunca voltei a considerar trabalhar de novo com tecnologia”.

O frio na barriga é normal, mas Thais nunca duvidou da própria decisão:

A gente sabe que tem que se empenhar mais nas coisas, por ser mulher e por ser mais velha. Mas eu queria tanto, eu me dediquei tanto que, sinceramente, não tinha como dar errado

Ela imaginou que iniciar em uma carreira considerada tão masculina poderia ser mais difícil, mas descobriu que as barreiras não eram maiores do que na sua área anterior, a computação. “Com a tecnologia, no dia a dia aconteciam muito mais situações de machismo”, comenta.

Ela reconhece que o suporte do primeiro chefe em uma oficina foi fundamental – tanto que a parceria dura até hoje. “Depois fiquei sabendo que, quando um cliente chegava e sinalizava que não queria que eu mexesse no carro, o Fábio fazia questão de ressaltar que eu estava lá porque tinha competência. Ele nem deixava eu perceber essas situações”, conta. Os colegas podem até ter desconfiado da estagiária de 1,55 metro de altura, especialmente em tarefas que exigiam força física – mas Thais logo conquistou seu espaço. Para as mulheres que desejam entrar na mesma área, ela não poupa palavras de incentivo: “A resistência é só no começo. Ela acaba na hora em que eles percebem que você gosta mesmo e está a fim de fazer o trabalho, de verdade. O retorno é muito melhor do que as coisas ruins que acontecem. Vale muito a pena investir, estudar e mandar ver”.

Ela sabe que ainda é uma exceção, mas sonha com um futuro em que mulheres não acreditem que mecânica é assunto exclusivamente masculino. Thais quer alcançar mais e mais pessoas com seu canal no YouTube para ajudá-las a perceber que a mecânica está, sim, ao alcance de tod@s. “Uma das minhas funções é mostrar para as pessoas que mecânica é algo bonito, que é legal. E outra é limar da face da Terra os pilantras da área já que, se você souber um pouquinho, o cara não vai te enganar. Existe muita gente honesta, mas que é pilantra mancha muito a imagem do mercado. E, quanto mais pessoas entenderem quais oficinas fazem um bom trabalho e quais não fazem, a gente vai excluindo quem é ruim”, explica.

Como a própria Thais afirma, sua história comprova que a paixão por carros não é coisa de menino nada! Competência para dirigir e para consertá-los também não. A gente espera que, no futuro, o mundo esteja tão cheio de exemplos como estes que não sobre mais nenhum espaço para o preconceito. Compartilhe suas histórias com a gente e vamos juntos criar um mundo mais democrático, inspirador e justo!

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