Ela ama caminhões desde criança e hoje conduz uma carreta pelas estradas do Brasil

Priscila De Brito conheceu o marido em um posto de gasolina e, com ele, retomou o sonho de trabalhar como motorista de caminhão

Que estaria no volante, Priscila De Brito não tinha dúvidas: suas fotos de criança confirmam que a paixão é antiga. Desde menina, ela preferia ganhar carrinhos de presente ou pegar os brinquedos dos primos emprestados. Para ela, as bonecas não tinham muita graça. Já adulta, foi trabalhar com o pai, conduzindo um guincho: “A empresa era do meu pai e eu meio que assumi, cuidava de tudo. Fazia prospecção de clientes, visitava oficinas. Acordava de madrugada para socorrer. Eu tinha me conformado de deixar meu sonho de lado. A vida era muito corrida e eu não tinha tempo para pensar nisso”, conta Priscila.

 

Parecia que a menina apaixonada por caminhões já tinha ido longe. Fazia faculdade de Marketing, era dedicada ao trabalho. Não queria saber de namoro. Foi em um ambiente de trabalho que ela conheceu Marcelo, motorista de uma carreta, que estava ali de passagem. Ela estava com o guincho, em um posto de gasolina, trocando os adesivos do veículo. “Ele perguntou meu nome. Eu respondi. Ele me procurou no Facebook e nós começamos a conversar”, e assim o romance começou. Pouco tempo depois, veio uma proposta: o que Priscila acharia de acompanhá-lo em uma viagem? “Ele disse que era uma vida difícil, e assim eu poderia saber se queria mesmo aquilo”, lembra. Diante dessa oportunidade, o sonho de criança ressurgiu.

Aos 29 ano, Priscila faz questão de deixar claro que não é mesmo uma vida fácil. Ela e o marido trabalham para a mesma empresa e viajam juntos, cada um conduzindo a sua carreta. “Para as mulheres, é mais complicada a questão da segurança, mas mesmo outros colegas preferem viajar em dupla porque é mais seguro. A gente dorme onde abastece. O agravante é que muitos lugares não estão preparados para receber mulheres: muitas vezes chegamos a uma empresa e não tem banheiro feminino. Em muitos postos, quando tem, é bagunçado e sujo. Eu friso que não é uma vida de glamour. Tem o desafio de viajar, de trabalhar e o desafio da convivência, já que trabalhamos juntos 24 horas por dia”.

A recompensa? A liberdade de viajar. Priscila se enche de entusiasmo para falar da estrada:

“Eu acho que jamais teria a oportunidade de conhecer tantos lugares novos no Brasil. A gente faz amigos em todos os lugares. O amor só vai aumentando conforme passam os anos”.

Desde criança, nada do que ouviu diminuiu sua vontade de estar ao volante: que é muito baixinha (tem apenas 1,5 metro), que a profissão é muito perigosa. “Quando trabalhava com o guincho, eu chegava nos lugares e as pessoas diziam ‘cadê o motorista? Mandou a secretária?’. Ou chegava na oficina e ouvia ‘cuidado com as paredes, acabei de pintar’. Ou me perguntavam se o caminhão era adaptado, por causa da minha altura”. O medo até poderia ser uma barreira, mas Priscila tem consciência de que, no seu caso, o medo é sinal da consciência da sua responsabilidade nas estradas: “Estar numa rodovia é muito diferente. Tem que estar bem consciente dos riscos”.

É desafiador ficar tantos dias, até meses, na estrada, longe da família, que é de Caxias do Sul (RS). Priscila entende que é uma escolha: “Ou você trabalha com o que ama ou fica perto da família. É muito difícil trabalhar com carreta e conseguir estar em casa. A maioria fica pelo menos 30 dias fora”. Talvez seja um pouco por isso que o pai não ficou feliz quando a filha saiu da empresa: “Quando resolvi viajar mesmo, meu pai ficou bem chateado. Ele tem medo que aconteça alguma coisa. Só que eu acho que alguma coisa pode acontecer em qualquer lugar, mesmo em um emprego que você acorda em casa todos os dias para ir trabalhar”. A mãe é mais tranquila, entende que a filha gosta da profissão e é boa no que faz.

Para ajudar a superar os desafios que encontra, Priscila gosta de ler as histórias da página De Carona com Elas:

Às vezes, você está pensando ‘será que eu consigo?’, lê uma história que é mais complicada que a sua e pensa ‘eu vou conseguir também’. É muito bom saber que alguém tinha medo e conseguiu superar. É gratificante ver a vitória das pessoas. Ler as histórias de vida das pessoas é uma coisa que muda a gente

Seja um sonho que surgiu na infância ou um que surgiu mais tarde, agora que a gente conhece a história da Priscila, a gente sabe que eles podem estar apenas adormecidos esperando pela oportunidade de serem transformados em realidade. Quem sabe essa é a história que os seu sonho estava esperando para despertar?

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