Ela decidiu que não seria vencida pelo carro e assumiu o banco do motorista depois dos 40 anos

Nadiara Vidal passou mais de 20 anos longe do volante e admite que criava desculpas para disfarçar o medo de dirigir

Aos 18 anos, Nadiara Vidal era uma jovem carioca destemida: tirou a carteira de habilitação e era incentivada pelo pai e pelo namorado a dirigir. Gostava de manobrar o carro, de lavá-lo, de dar pequenas voltas até a padaria. Acreditava que dirigir era sinônimo de empoderamento e liberdade para uma mulher: “Eu tinha uma cena cinematográfica na minha cabeça, que eu gostava de imaginar: eu, de salto alto, entrando em um carro para dirigi-lo. Hoje, claro, mesmo que eu vá de salto, eu tiro o sapato para dirigir”, diverte-se. Entre a menina que morava no Rio de Janeiro e a mulher que vive hoje em Belém do Pará, existem mais de 20 anos de histórias de conquistas e desafios. Uma das grandes vitórias: vencer, finalmente, o pânico que passou a associar ao volante depois de 20 anos afastada do banco do motorista.

Nadiara admite que, até então escondia o medo de dirigir sob uma série de desculpas como “não gosto”, “não tenho paciência”, “é estressante”.

Nadiara mudou-se para o Norte do país atrás de uma paixão: conheceu o ex-marido através de uma tecnologia que hoje poderia ser descrita como “pré-histórica” em relação à internet, o rádio-amador: “Como eu estudava Inglês, apontava a antena para os Estados Unidos e conversava muito para treinar o idioma. Em uma dessas ocasiões, o sinal desviou para Belém e assim conheci meu ex-marido. Um ano depois, fomos morar juntos”. Sete anos depois, tiveram o primeiro filho. Quando o menor tinha cerca de dois anos de idade, o casal se separou. Até então, Nadiara morava perto do trabalho e da escola dos filhos, então não sentia necessidade de dirigir.


Separada, triplicou as horas de trabalho como professora de inglês para garantir o próprio bem-estar e o dos filhos. “Há cerca de cinco anos, comecei a sentir necessidade. Eu me deslocava muito durante o dia e meu namorado me convenceu que seria mais econômico, além de confortável, eu ter um carro”, conta. Nadiara admite que, até então escondia o medo de dirigir sob uma série de desculpas como “não gosto”, “não tenho paciência”, “é estressante”. No fundo, ela sabia que tinha desenvolvido uma resistência muito grande à ideia de assumir o volante. Quando percebeu que precisava enfrentar a situação de frente, tomou uma atitude impulsiva e radical: comprou um carro.

“Depois que comprei, aí, sim, sentei e pensei: como eu fiz isso se não sei dirigir? Como fiz isso? Deu vontade de voltar e desfazer o negócio”, conta. Há poucos meses, Nadiara havia passado por um longo processo burocrático para recuperar a carteira de motorista, que não havia sido renovada há mais de 20 anos. Contou com a ajuda de um vizinho, professor de aulas para habilitados. No dia de buscar o carro, conta que não conseguia sair de casa na hora marcada. O filho Alessandro, então com 12 anos, insistiu e foi junto com a mãe. Ao voltarem para casa, a quatro quarteirões de distância, ela conta que suava e tremia. “Eu tinha muito medo de fazer besteira e dizerem: olha lá, só podia ser mulher dirigindo!”, lembra. O sofrimento durou cerca de três meses. Neste período, arranhou os dois lados do carro, sentia taquicardia, suava frio, a pressão estava altíssima e, ao chegar em casa, sempre chorava muito.


Por outro lado, Nadiara sempre pensava em tudo que havia conquistado em sua vida até então: “Eu sou o tipo de pessoa que, quando não sei fazer algo, vou aprender. Não consigo aceitar que posso ser incapaz. Eu morria de medo de fazer cesariana e tive dois filhos. Eu saí de um Estado e vim para outro sem conhecer ninguém. Eu sustento meus filhos, falo outro idioma. Não acreditava que ia me deixar ser vencida por uma máquina”. Cerca de quatro meses depois, a professora já estava mais tranquila. O que mudou?

Uma das coisas que percebi é que, para fazer besteira, basta estar dentro do carro: homens, mulheres, idosos, moleques, pessoas que dirigem há muito tempo – todos cometem erros.

Por isso, sempre faz questão de ensinar ao filho que homens e mulheres podem ser bons (ou maus) motoristas: “Quando alguém fala algo como ‘só pode ser mulher dirigindo’ diante de uma criança, está perpetuando esse tipo de pensamento. Então, dentro do meu carro, eu não deixo falarem isso”. Aos seus filhos, portanto, ela conta que está sempre mostrando que é importante ter respeito no trânsito, tanto pelos outros motoristas como pelos pedestres.


Quando avalia sua história, Nadiara acredita que a necessidade de dirigir foi mais importante do que a coragem. “Quando não temos ninguém para fazer por nós, precisamos colocar a cara na rua”, explica. Às vezes, é mesmo necessário encarar a situação de qualquer jeito: não adianta ficar esperando o medo passar. Na sua vida, você também já viveu momentos em que a necessidade falou mais alto que o medo?

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