Ela defende igualdade de gênero em sua comunidade de pescadores: “lugar de mulher é onde ela quiser”

A líder comunitária é casada desde 2013 com sua companheira - o primeiro casamento homoafetivo da cidade.

Ana Lucia de Jesus Bispo não tem medo das adversidades. Essa pescadora de 54 anos é capaz de transformar o ambiente mais hostil em seu habitat natural. Carioca com sangue baiano, não faz o perfil de meias-palavras e dispensa cerimônia:

Eu sou negra, eu sou mulher, sou lésbica, sou gorda e sou ambientalista. Meu lema é que lugar de mulher é onde ela quiser.

A defesa pela igualdade de gênero e pelos direitos LGBT fez dela uma das líderes da comunidade de pescadores de São Francisco do Conde. A cidade da Região Metropolitana de Salvador abriga a Refinaria Landulpho Alves, primeira refinaria nacional de petróleo. Mas quando Ana chegou ali, vinda do Rio de Janeiro, deu de cara com uma realidade muito dura. “A situação era de sofrimento. Pescadores e pescadoras que tinham seus direitos violados e, muitas vezes, nem se davam conta”, explana. Além disso, casos de violência doméstica e sexual, contra as mulheres, eram rotina.

Ela resolveu agir. Da infância no Rio de janeiro, morando com a madrinha – “uma madame”, como Ana mesmo diz, tirou suas primeiras lições sobre solidariedade. “Ela organizava eventos beneficentes com artistas e doava para hospitais e orfanatos”, lembra. Em São Francisco do Conde, já foi diretora da colônia de pescadores e acumula participação em mais projetos e iniciativas do que é capaz de contar, além dos cursos e palestras que dirigiu na UNILAB (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira).

Ana é uma das vozes mais ativas da comunidade, possibilitando o diálogo e o entendimento entre a Petrobras e as pessoas que residem no entorno das suas unidades operacionais, em temas como meio ambiente e desenvolvimento.

Ela espera ver mais mulheres participando da política. “As mulheres têm direito de estar no poder e ocupar todos os espaços. Mais do que isso: chegar lá e representar as outras”, idealiza. Ela já foi candidata a vereadora duas vezes, sem se eleger. Mesmo sem o cargo, ela segue combatendo injustiça contra minorias, principalmente a violência contra mulher, racismo, homofobia e gordofobia.

“Muitos nunca pisaram na Câmara de Vereadores da cidade. Eles têm medo de fazer alguma coisa e perder os benefícios sociais. Eu digo, ‘Gente, dinheiro é do povo, eles trabalham pra nós.’ Quando você melhora, quando você toma uma atitude de cidadã correta, tudo pode melhorar.”

Desde 2013, é casada com Luciana Bispo – o primeiro casamento homoafetivo da cidade. Ana conta que a companheira compartilha da sua visão de mundo e garante que é tão ativista quanto ela. Para que o convívio seja mais saudável, elas atuam em projetos diferentes, mas podem contar sempre com o apoio uma da outra.

A força e determinação de Ana Bispo serviram de inspiração para o calendário Petrobras De Carona Com Elas 2018, que já está disponível para download.

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