Ela dirige a própria empresa e tudo começou com um carro cor-de-rosa personalizado

Catia Tappi não imaginava que uma brincadeira sobre um filme sairia da ficção e se transformaria em um negócio na vida real

Parece história de amor que a gente vê no cinema: ela está saindo do trabalho, a caminho da faculdade para fazer uma prova, mas seu carro estraga em frente a uma oficina. Chove muito. Os rapazes que trabalham ali ajudam a colocar o carro para dentro, e um deles a surpreende: empresta seu próprio carro para que ela consiga chegar a tempo. Ela ainda não sabe, mas está conhecendo o seu futuro marido. Ele, na verdade, já vinha observando aquela moça que, em alguns dias da semana, pegava ônibus na parada em frente à oficina. Em menos de dois anos, Cátia Tappi e Fábio Monreal já estão casados.

O início desse romance daria uma boa história de ficção – e foi mesmo um filme que mudou o destino do casal. Em 2001, Cátia queria sair mais, viajar, encontrar amigos. Fábio, nos finais de semana, estava cansado. Quando viu os carros no trailer do primeiro filme da série Velozes e Furiosos, Cátia comentou, em tom de brincadeira, que ela poderia personalizar o seu carro também. Se transformasse o próprio carro em hobby, será que Cátia e o marido ficariam mais próximos, teriam mais oportunidades para saírem juntos?  

Um presente cor-de-rosa

Pouco tempo depois, veio a surpresa. Cátia diverte-se ao lembrar: “Meu aniversário era em fevereiro. Íamos fazer uma viagem de férias e ele deixou meu carro para fazer uma revisão. Quando voltamos, já estava todo cor-de-rosa, com neon! Eu, por fora, dava risada. Por dentro, pensava que parecia uma árvore de Natal! Ficava imaginando que dali a seis meses ia dizer que tinha enjoado do carro e que estava pensando em trocar.” Cátia não imaginava que o marido levaria tão a sério sua brincadeira sobre Velozes e Furiosos, e também não sonhava que um novo futuro profissional começava a se desenhar em seu horizonte. Sobre uma coisa, estava certa: o carro totalmente pink trouxe a oportunidade de sair mais, viajar e fazer novos amigos.

Foi um amigo que a convidou para participar do primeiro evento de customização de veículos: “Eu achei deslumbrante! Gente diferente, carros diferentes, não me senti mais como uma ovelha negra. Eram milhares de carros, mas apenas meia dúzia de mulheres – só que elas chamavam tanto a atenção que parecia que elas é que faziam o evento”. Alguns homens olhavam com desdém para os carros em tons de rosa ou roxo, inspirados em personagens como Betty Boop ou As Superpoderosas – mas nada que diminuísse a nova paixão de Cátia. Um evento foi puxando o outro. No começo, o marido ia junto: “Era o que eu queria: sair, conhecer lugares. Ele ia porque a gente não conhecia muito os ambientes. Hoje, vou sozinha. E ele não pode falar nada, porque se eu estou nesse mundo foi porque ele me abriu as portas. Se ele está cansado, eu pego e saio”.

De um motor fundido à mão na massa

Não demorou muito para Cátia, mais uma vez, transformar o que poderia ser outra crise em uma grande oportunidade: a loja de customização em que o marido trabalhava decidiu fechar as portas. Ela não teve dúvidas de que os dois poderiam iniciar um negócio juntos no mesmo segmento. No começo, seria em casa mesmo. Os dois colocariam a mão na massa: “Ele foi me ensinando a desmontar lanternas, instalar rádio, tirar parachoques, as coisas simples”. O nome Upgrade Personnalité surgiu depois de um dia inteiro de reunião em família para discutir qual seria a marca do negócio, uma oficina focada em customização automotiva.

Foi uma reviravolta: até pouco tempo antes disso, Cátia sequer sabia o básico da manutenção do próprio carro: “Eu só abastecia e colocava óleo no motor. Ele me dizia que eu tinha que trocar o óleo, mas eu não prestava atenção, até que fundiu o motor do meu carro! Tive que mandar arrumar. Hoje eu faço revisões”. Mais do que isso: Cátia anda com as próprias ferramentas e é capaz de fazer pequenos consertos no Corsa pink que ainda usa para transitar por São Paulo, onde vivem.

Determinação e filtro na hora de lidar com as críticas

Cátia observa que os eventos automotivos tornaram-se mais receptivos à participação feminina com o passar do tempo. Quando começou a frequentá-los com seu carro cor-de-rosa, no início dos anos 2000, os olhares tortos e as piadinhas eram frequentes. Hoje, o cenário evoluiu. Ela também amadureceu, aprendendo a filtrar as críticas que podem trazer aprendizados e deixar de lado aquelas que não têm fundamento algum. “No começo, eu ficava chateada, mas percebi que muita gente fala demais! Hoje, se alguém diz que meu carro é ridículo, eu agradeço e digo que a pessoa pode, se quiser, customizar seu próprio carro como achar melhor. É uma questão de gosto. Vem dando certo”.

Dirigir sempre foi, de certa forma, uma paixão para Cátia. Ela conta que mesmo antes de aprender a dirigir adorava lavar o carro da família: “Só para engatar a primeira marcha, tirar o carro da garagem, lavar e depois colocar de volta na garagem. Era um grande prazer!”. Na hora de tirar carteira de motorista, a frustração não foi maior que a vontade: ela só passou na quinta tentativa. “Foi um sofrimento repetir tantas vezes. Eu ficava frustrada porque eram besteiras, mas não pensei em desistir”, relembra.
Se tivesse desistido no primeiro evento, ao ouvir as primeiras críticas, como seria a vida de Cátia hoje? Ela reflete: “Meu carro cor-de-rosa uniu minha família, eu e meu marido estamos ainda mais próximos, nosso filho nos apoia quando precisamos, temos nosso trabalho respeitado.

E se eu tivesse desistido por um comentário infeliz? Será que teria minha loja? Minha casa? Ainda estaria casada? Não sei, mas eu fui aprendendo e tentando”.

Para ela, toda conquista começa com uma tentativa. Como se diz, o não a gente já tem. Ao tentar, você sempre vai descobrir outras pessoas que já estão mais à frente e estarão dispostas a incentivar. O importante, claro, é seguir tentando mesmo depois dos primeiros tropeços. Com histórias como estas, não é difícil se sentir motivada a apostar naquilo que você gosta e acredita, certo?

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