Ela já é bisavó e tem quase 30 anos de profissão, mas segue apaixonada pela estrada

Sandra Buzoli entrou na vida de caminhoneira por causa do marido, com quem vive há mais de 40 anos

Já imaginou passar dias na estrada sem telefone celular, sem internet, sem aplicativos de mapas? Quando Sandra Buzoli começou sua vida de caminhoneira, há quase 30 anos, a estrada era muito mais solitária do que é hoje. Natural de Jaboticabal, Interior de São Paulo, Sandra é casada há 40 anos e tem três filhos adultos. A família cresceu rapidamente: a filha Fernanda casou aos 18 e teve Gabriela. A neta, aos 18, teve uma filha: a Isabela, que faz um aninho em abril de 2018. “Quem sabe a Isabela vai querer ser caminhoneira?”, imagina a bisavó orgulhosa.

São muitas as paixões na vida de Sandra, mas a estrada ocupa um lugar especial e imenso no seu coração. Foi por causa do marido que ela começou a dirigir. Antes de virar caminhoneira, enquanto os filhos ainda eram pequenos, Sandra fazia o que podia para ajudar a ganhar o sustento da família, trabalhando em casa como manicure e cabeleireira. A carteira de motorista de veículos de passeio veio apenas depois do nascimento do terceiro filho, por necessidade. Já que o marido passava dias viajando a trabalho, ela precisava ter mais autonomia enquanto estava em casa com as três crianças.

Algum tempo depois, quando Márcio, o filho mais novo, já estava com cerca de nove anos, Seu Zé levou Dona Sandra em uma viagem de caminhão para o Mato Grosso. “Uma hora eu sentei no banco do motorista para ele me ensinar. Na hora, eu falei ‘ih, você não sabe o que fez!”. Ele perguntou: “o quê?”. Eu disse: “Quando eu voltar, vou mudar a letra da minha carta de motorista! Eu quero é isso pra minha vida!” A partir daí, comecei a viajar mais com ele”, conta. Para conseguir pagar pela mudança de categoria na carteira, Sandra trabalhou como faxineira em um posto de combustível.

Foram alguns anos trabalhando juntos, deixando as crianças sob os cuidados da avó materna, acompanhando a evolução da tecnologia e das formas de comunicação para matar a saudade. Durante cerca de 5 anos, Sandra dirigiu caminhão-tanque, transportando combustível, tarefa que exige cuidados extras com segurança. Um de seus grandes orgulhos é ter sido eleita uma das 100 melhores motoristas do Brasil pela Petrobras, no programa Motorista DEZtaque: “Essa premiação é um incentivo para a segurança. Existe uma série de regras para evitar acidentes, inclusive avaliações psicológicas para saber se está tudo bem com a gente. Entre mais de 4 mil motorista, fiquei entre os 100 melhores. Pude ir para o Rio de Janeiro e levar meu marido como acompanhante. Foi muito legal”, conta Sandra.

Reconhecimento é bom, mas, para ela nenhum prêmio vale mais do que a sensação de liberdade que é viver na estrada: “Apesar de tudo o que você passa, você está ali, sozinha com seus pensamentos. Eu me sinto livre. Eu quero voltar pra casa, mas se fico em casa já começo a ficar estressada. É como os pássaros, você não quer ficar preso. Eu sou muito agradecida a essa profissão. Ela me ensinou como ser livre”. Quando viaja com o marido, prefere trabalhar em turnos invertidos, já que cada um tem seu estilo de direção e as pequenas implicâncias de um com o outro não dão trégua.

Ser livre, para Sandra, significa também ser capaz de dirigir a própria vida. Deixar os filhos com a mãe e pegar a estrada não foi fácil, mas abrir mão dos próprios sonhos e ficar em casa também não seria. Afinal, se deseja que os filhos sejam capazes de ir atrás das próprias conquistas, nada é melhor do que dar o exemplo, certo?

“Sempre conversei, sempre mostrei para os meus filhos e para o meu marido o que eu sentia a respeito do que eu queria para mim. Eu preciso disso, é o que eu quero. Eu vou deixar passar as oportunidades que surgiram na minha vida? Claro que não. Esperei meu filho mais novo ter 10 anos e conversei muito com eles”

Hoje, os três não escondem o orgulho da carreira que o pai e a mãe construíram na estrada.

No começo, enfrentar o preconceito dos colegas homens, ignorar os comentários de quem dizia que ela não ia conseguir, superar as dificuldades práticas da vida na estrada – nada disso foi simples. Mas Sandra não acredita que obstáculos sejam razões para desistir: “Uma mulher que tem o desejo de ser caminhoneira e não vai atrás, que sonha com aquilo e não tem coragem para ir atrás da vida que ela quer, se ela tem vocação e não fizer, ela vai se sentir frustrada o resto da vida”. Por isso, ela sempre tem uma palavra de incentivo para oferecer às mulheres que encontra pelo caminho. “Ninguém vai trazer nada de mão beijada, mas quando você corre atrás e vê aquilo que você está fazendo com suas próprias mãos, é muito bom. Quem trabalha sabe do que estou falando”, ela conta.

Em quase 30 anos de estrada, Sandra já viu muitas transformações, conheceu muita gente, viveu muitas histórias. Ela considera o suficiente? Claro que não: quem tem essa paixão, ela conta, tem um tipo de vício pela sensação de liberdade, uma vontade constante de andar por aí. “Se eu tivesse tirado a carta com 21 anos, teria ainda mais coisas para contar!”, ela brinca. A verdade é que não precisaria mudar nada nessa história, certo? Dona Sandra já é inspiração de sobra para todas nós!

 

 

  • Minha História Estilo de carro feminino? É como cada mulher quiser!

    Saiba mais
  • Minha História Ela seguiu os passos do pai e do avô e dedica a vida à preservação da natureza

    Saiba mais