Ela largou o emprego e transformou a paixão por direção e por pessoas em trabalho

Em busca de qualidade de vida, Cláudia Luciane Oliveira preparou-se por um ano para pedir demissão

Concluir um curso de graduação, desenvolver uma carreira na área escolhida, conseguir um emprego em uma instituição privada reconhecida, ter um bom salário: por que alguém com essa trajetória decidiria fazer uma mudança de vida? Na relação de trabalho, como em qualquer relacionamento, nem sempre quem olha de fora enxerga e entende o que está acontecendo do lado de dentro. A jornalista Cláudia Luciane hoje atua como motorista de aplicativo em Porto Alegre, depois de pedir demissão da escola em que trabalhava como assessora de imprensa há cinco anos: “Eu comecei a avaliar a questão da qualidade de vida: de que adianta ganhar um salário muito bom e gastar boa parte em terapia e medicação para dormir? Tentar manter uma suposta estabilidade, ter carteira assinada, pode ter um custo pessoal muito alto”.

Cláudia é divorciada e tem um filho de oito anos. Para outras pessoas, o trabalho pode significar status social, mas não é assim que ela vê as coisas: “A única coisa que me interessa é estar bem. É o meu bem-estar e o do meu filho, que é a minha família”. Preocupar-se com a opinião alheia não está na lista de prioridades de Cláudia, que se define como uma pessoa independente e inquieta, que não gosta de rotina. A paixão por direção vem de criança, mas a ideia de trabalhar como motorista surgiu depois de uma conversa com amigas que estavam exercendo a atividade nos finais de semana. Cláudia resolveu testar e se apaixonou.


Gostar de gente

Para quem está pensando em complementar a renda ou aderir à atividade definitivamente, o primeiro passo é não ter medo de experimentar. É necessário, obviamente, gostar de estar no trânsito e em contato com as pessoas. Flexibilidade e organização, segundo Cláudia, também são fundamentais: “Estou sempre me adaptando. Se tenho alguma tarefa para fazer, tendo inserir no dia, mas nem sempre vou conseguir fazer no horário que imaginei. O almoço precisa ser às 10h ou às 15h, para não ficar parada no horário de maior movimento – mas não dá para cair na rotina de comer apenas lanchinhos. Eu sei que adoeço se fizer isso”.

Além de paciência para encarar as situações estressantes do dia-a-dia nas ruas, é importante estar atento e adaptar-se aos horários e locais de maior movimento ao longo dia. Mais importante do que tudo: para lidar com o público, é bom estar preparado para enfrentar os variações de humor dos passageiros. Enquanto alguns, por carência, aproveitam a oportunidade para discutir problemas pessoais, outros sequer dão bom dia. “Ocorre muito de as pessoas entrarem no carro chateadas e compartilharem os problemas. Tu vais conversando sobre aquilo ali e, de certa forma, ajuda a pessoa a encontrar uma alternativa”, comenta Cláudia. Ela é especialmente interessada nas histórias que os passageiros têm para contar, até pela curiosidade característica dos jornalistas.


Independência planejada

Não gostar de rotina não é a mesma coisa que não gostar de planejamento. Da mesma forma que se organizou para sair do emprego e se planeja para trabalhar e manter uma vida equilibrada hoje, Cláudia arquitetou com cuidado a forma como conquistaria a sua carteira de motorista. Crescendo no Interior do Rio Grande do Sul, ela viu o pai ensinar os irmãos mais novos a dirigirem: “Eu amava andar de bicicleta, de skate! Via aquilo e imaginava que ia gostar muito, mas sabia que meu pai nunca iria me ensinar”.

Foi apenas aos 24 anos que Cláudia aprendeu a dirigir. Ela juntou dinheiro para comprar seu primeiro carro e, no mesmo dia que retirou a carteira de habilitação, buscou o automóvel na concessionária. “Quando estava a caminho de casa, começou a anoitecer e me dei conta que havia feito o test drive durante o dia e não tinha perguntado onde ligava os faróis! Eu estava muito nervosa, minhas mãos vertiam água no volante”, Cláudia se diverte ao lembrar.


Uma questão de atitude

Enquanto batalha para construir um estilo de vida equilibrado, Cláudia conta que ensina o filho a ter autonomia:

“A gente tem que ter proatividade. Não dá para ficar esperando que os outros façam pela gente. Eu sempre falo isso para ele”.


Buscar o que quer nem sempre é fácil, e às vezes inclui tomar decisões que vão no sentido contrário do que os outros esperam, como fez a jornalista ao sair do emprego – mas esse é o caminho da independência. É claro, ninguém precisa dar um primeiro passo tão radical para começar a ir atrás do que realmente quer.

O importante é começar a experimentar: “A vontade de fazer diferente tem que ser maior que o medo. Mesmo que você não goste, é melhor do que ficar na dúvida, pensando em como as coisas poderiam ter sido diferentes…”. E você? Não importa se é um passinho pequeno ou grande, mas vale refletir: o que você tem feito para assumir a direção da sua vida?

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