Ela mudou de carreira, mas segue lutando por um mundo mais justo para tod@s

Adriana Toledo atuou por 20 anos em ONGs e hoje conduz passageiros pelas ruas de São Paulo

A primeira profissão de Adriana Toledo foi como datilógrafa, aos 14 anos de idade. Durante cerca de 20 anos, atuou em diferentes funções administrativas em ONGs que tinham como bandeira a defesa dos direitos e o combate à violência, inclusive violência doméstica. Sob um ritmo de trabalho intenso, chegou o dia em que ela precisou parar. O filho não estava bem, nem ela. “Foi uma estafa mesmo. Travei nas quatro rodas”, descreve. Adriana adoeceu e, a partir daí, decidiu que precisava cuidar mais de si e do filho.

Inspirada pelo irmão, que sempre trabalhou como motorista e mais recentemente passou a dirigir para aplicativos, Adriana decidiu experimentar a atividade. “Me deu um estalo qualquer. Eu comecei de manhã, com o carro dele. Curti muito. Já estou há 2 anos. Eu não tenho medo de pessoas. Não tenho medo de trânsito. Não tenho medo de pobre. Não tenho medo de preto, já que sou preta também”, conta a motorista, que prefere transportar passageiros pela Zona Leste de São Paulo, região onde sempre viveu. Hoje, ela prefere trabalhar nas madrugadas.

A destemida Adriana é uma das personagens da campanha A Rua é de Tod@s, da Petrobras De Carona com Elas. Em vídeo, a motorista e outras sete mulheres foram convidadas a ler comentários verdadeiros tirados da internet. Ideias preconceituosas que, infelizmente, ainda são disseminadas, como “Motorista é profissão de homem” ou “Mulher não entende nada de trânsito”. Ela conta que “quase não teve resposta” para estes comentários, de tão absurdos: “É triste ver como as pessoas são antiquadas!”.

Para ela, é muito importante o fato de o vídeo mostrar mulheres em diferentes atividades, consideradas masculinas, como as que trabalham com mecânica ou a comandante de um navio: “É muito legal! Se tem mulheres que já fazem, você pode fazer também. Não tem nada que te desabilite a desenvolver diversas funções”.

Nosso objetivo é transformar a rua em um ambiente mais democrático, justo e inspirador para tod@s.  Saiba mais sobre o movimento.

A motorista profissional considera um tabu a ideia de que esta atividade é especialmente arriscada para mulheres:

“Por que tanto medo de estar na rua? Mais de 80% dos casos de violência sexual são cometidos por pessoas conhecidas. Às vezes me pergunto se esse tabu que se coloca não é também uma estratégia para manter as mulheres em casa”

Se enxerga algum risco na profissão, é o de ser assaltada.

Muito tranquila, a motorista encara com serenidade as situações em que sua competência ao volante é questionada: “Alguns homens brancos de mais de 50 anos vêm, sentam na frente e se comportam como se eu fosse a filha deles e eles estivessem me ensinando a dirigir. Querem me conduzir. É chato, mas eu não me estresso. A corrida vai durar, na pior das hipóteses, uma hora e meia. Então eu relaxo. Gente chata tem em todo o lugar. É melhor do que conviver com um chefe ou colega chato”.

Adriana entende que o trânsito provoca muitas reflexões sobre a sociedade e é apaixonada por ouvir as histórias das pessoas que embarcam no seu carro. Durante a crise de estresse que viveu na carreira anterior, Adriana relata que perdeu a capacidade de ler e escrever. Simplesmente não conseguia mais se concentrar. Para sua surpresa, a vida como motorista fez renascer a paixão de infância pelas palavras: “Eu passei a registrar crônicas no Facebook, o pessoal foi pedindo mais. O fato de conseguir voltar a ter habilidade de organizar as ideias e transmiti-las através da escrita é muito importante para mim e, a partir de uma habilidade que aparentemente não tinha nada a ver, eu consegui voltar a escrever”, celebra.

Para Adriana, essas histórias são muito valiosas. Claro que a mobilidade de horário também é importante, pois permite que acompanhe o filho e monte sua rotina de acordo com as próprias necessidades. Se a remuneração não é tão boa quanto gostaria, os outros fatores compensam: “Essa mobilidade ajuda muito o meu estado de espírito. A meta que preciso cumprir é minha, da minha necessidade pessoal. Não tenho ninguém me pressionando para isso. Posso acompanhar meu filho. Posso aparecer de surpresa na saída da escola dele”.

Uma parte importante da vida de Adriana é a espiritualidade. Há 25 anos ela iniciou no candomblé e, há 7, é sacerdotisa. “Quando fiquei doente, a única coisa que fazia sentido para mim era a religião. Era onde conseguia me desenvolver bem”, conta. Seu papel na religião também é ouvir e aconselhar. Se as palavras escritas fugiram temporariamente da sua vida, a capacidade de usá-las para se expressar parece ser um talento especial de Adriana.

Com a flexibilidade de horário, ela também conseguiu criar um grupo de conversas com alunos da escola que o filho frequenta: “Montei um grupo de cultura de paz no colégio. Não é um projeto oficial, mas discuto várias questões com eles. São meninos de 12, 13, 14 anos. É muito cruel a adolescência na nossa sociedade. Eles se sentem isolados. E o adulto parece que esquece que foi adolescente, se coloca como detentor de toda sabedoria, como se o menino estivesse sempre errado”.

Logo que largou o antigo trabalho, Adriana também se deu conta que gosta de fazer muitas outras coisas, como costurar, por exemplo: “A gente é moldado para escolher uma profissão, como se tivesse uma única habilidade, mas a gente tem muitas! Eu descobri que sei fazer roupas, que sou boa em resolver problemas. Fui trabalhar em um call center e adorei! Fui buscando diversas alternativas e desenvolvendo outras atividades”.

O importante, ela diz, é sentir satisfação no que faz, não importa qual seja a tarefa. Já estamos no caminho para que as habilidades e a inclinação pessoal sejam os únicos fatores importantes na hora de qualquer pessoa decidir, por exemplo, qual profissão seguir. Ainda falta avançar para que o respeito prevaleça sobre o preconceito, mas estamos construindo juntos este novo ambiente. Faça parte deste movimento!

Os comentários neste site estão temporariamente desativados em respeito à legislação eleitoral. A suspensão será mantida até o fim do primeiro turno das eleições (ou segundo, caso ocorra). Para entrar em contato conosco durante esse período, indicamos os canais disponíveis no site http://www.br.com.br/pc/fale-conosco ou no Serviço de Informação ao Cidadão- SIC – http://www.br.com.br/pc/acesso-a-informacao. Essa restrição se baseia na Instrução Normativa n.01 (11/04/18), da Sec. Esp. Comunicação Social da Presidência da República.

  • Campanha A Rua é de Tod@s

    Imagina se a rua fosse realmente de tod@s?

    Saiba mais
  • Minha História Oito mulheres incríveis que conquistaram seu espaço e contestam o preconceito todos os dias

    Saiba mais