Ela quer que as mulheres assumam seu poder, começando pelo carro

Barbara Brier trabalha com automobilismo desde os 16 anos e hoje dá aula de mecânica em turmas só de mulheres

A intimidade com ferramentas vem de criança: na família de Barbara Brier, ajudar o pai nos consertos da casa era coisa de menina, sim. Hoje, aos 28 anos, a mineira já tem mais de 10 anos de experiência no ramo automobilístico e duas grandes paixões: participar da comunidade de amantes de carros antigos (sua página no Facebook sobre o tema já passa de 5 mil fãs!) e ensinar mecânica para outras mulheres. Entender o básico sobre o funcionamento dos automóveis, para ela, é uma questão de autonomia e segurança. “É uma questão cultural isso de as mulheres não gostarem de mecânica. Para quem depende do carro, é importante. Elas precisam ser independentes para avançar nos negócios, na vida pessoal e na profissional”, defende Barbara.

E de independência ela entende: sem dinheiro para pagar por um cursinho pré-vestibular, Barbara ingressou no curso de Aprendizagem Industrial do SENAI aos 16 anos. Aproveitou a oportunidade e, em seguida, emendou o Técnico em Automobilística. Aos 19, já realizava o sonho de trabalhar em uma montadora de automóveis, onde permaneceu por oito anos. Não foi fácil conquistar espaço em um ambiente majoritariamente masculino: “Eu não podia ser muito feminina. Se ouvia alguma gracinha, ignorava e continuava. Eu tinha que provar para os outros aquilo que eu sabia. Tinha gente que me testava. Mas com o passar do tempo, fui ganhando confiança”. Bem-humorada e tranquila, Barbara não deixa de reconhecer a importância dos professores que encontrou ao longo da jornada e elogia os antigos colegas de empresa.

 

O empoderamento feminino passa pela direção

 

Em 2016, uma amiga sugeriu que Barbara começasse a dar aulas para outras mulheres. Nos cursos, ela observa dois perfis de alunas: as que querem muito aprender e as que preferem deixar a responsabilidade pela manutenção do carro com outra pessoa. Muitas vezes, elas chegam depois de uma experiência ruim com algum mecânico: seja assédio ou aquela sensação de estar sendo enganada por um mau profissional que lucra diante de uma cliente com pouco conhecimento.

Para ela, é fundamental que as mulheres assumam seu lugar como motoristas e capacitem-se para resolver pequenos problemas que possam surgir: por que não aprender a trocar pneus, por exemplo? “Eu brinco que o pneu é como um sapato: precisamos cuidar dos pneus como cuidamos dos sapatos!”, afirma. Não é porque os homens brincam de carrinhos desde criança que as mulheres precisam sentir-se excluídas deste universo.

Barbara faz questão de contar que, mesmo sendo apaixonada por carros e entendendo tudo de mecânica, quando foi tirar a carteira de motorista tinha medo de dirigir. Para as que não se sentem seguras no trânsito, ela dá o recado: “É treino! Eu fui melhorando com o tempo, com treinamento. Tem dias que estaciono mal, que não estou muito bem, que deixo o carro apagar. Isso não acontece só com as mulheres: vocês acham que homens compram carros com câmbio automático por quê?”. ???? Faz sentido, né? Ela sabe que, muitas vezes, a falta de confiança vem de fora, das pessoas que dizem que direção e mulher não combinam: “Elas precisam saber que isso é uma coisa cultural, precisam acreditar em si mesmas, não podem dar um poder desse tamanho para outra pessoa. Elas precisam se apropriar disso!”.

É claro que mesmo as mais experientes podem enfrentar problemas – e Barbara também compartilha as histórias dos momentos em que precisou de ajuda: “Da última vez que parei, foi porque o carro superaqueceu. Eu estava no Centro de Belo Horizonte, perto de um Posto BR. <3 Os frentistas ajudaram muito, foram muito gentis. Eu estava sozinha e eles me ajudaram até a chegada do reboque”. Não é por ser expert que Barbara está livre de dificuldades! “Carro de mecânico também dá problema. Não é possível prever tudo”, complementa, entre gargalhadas. Barbara acredita que comunidades como De Carona com Elas têm um papel importante: “Nas redes sociais, as mulheres ajudam umas as outras. Uma pode rodar com a outra! Em vários grupos, estamos deixando de lado a competição feminina e colaborando para o crescimento uma da outra”. Compartilhar conhecimento, experiências e caronas: lado a lado, evoluímos juntas. Queremos autonomia, mas nada é melhor do que sabermos que podemos contar umas com as outras, certo?

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