Ela seguiu os passos do pai e do avô e dedica a vida à preservação da natureza

Zélia Brito supera desafios pessoais e externos para manter a integridade de uma reserva biológica no meio do Atlântico

No lugar onde Maurizélia de Brito Silva trabalha, não é possível chegar de carro, moto, ônibus ou metrô. Dirigir? Só se for um barco! É pela água que Zélia, como é conhecida, viaja até o Atol das Rocas, uma reserva biológica onde é possível chegar apenas pelo mar, em um percurso que dura cerca de 25 horas. São 270 quilômetros de distância a partir da costa do Rio Grande do Norte. O Atol das Rocas, desde 2001, é designado como um Patrimônio Natural da Humanidade, título que é motivo de orgulho para Zélia, que luta pela sua conservação há 27 anos. No começo, a pesca ilegal era a maior ameaça do local. Hoje, o maior desafio é garantir que o atol siga seu propósito de conservação e pesquisa.

Aos 52 anos, Zélia poderia já ter se aposentado. Em vez disso, decidiu aos 50 começar a intensificar os cuidados com o corpo para garantir o preparo físico necessário pelo trabalho desgastante que exerce quando está nas ilhas. “Hoje meu maior desafio é que não tenho mais 25 anos, tenho 52. O trabalho é árduo. A gente faz patrulhamento, pesquisa, cozinha, pilota barco, carrega água. Meu maior medo era não ter condições físicas de ir pro atol. Aos 50, resolvi ser corredora para me preparar fisicamente e mentalmente. Meu desafio é chegar aos 60 trabalhando e bem fisicamente. O próprio atol já me fez uma atleta”, reconhece.

No atol, o turismo não é permitido. O local recebe apenas pesquisadores e a equipe do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). O atol forma uma espécie de lagoa no meio do Oceano Atlântico, servindo de abrigo para milhares de espécies, inclusive tubarões, tartarugas e aves. “A maior função é proteger a biodiversidade marinha. Baleias, lagostas, polvos, peixes, inclusive tubarões, se reproduzem. Vemos os filhotes, depois jovens e depois adultos. Esses bichos não atacam a gente porque é um ambiente saudável e também porque a gente não persegue, não toca. É uma área de preservação integral”, explica Zélia, que intercala temporadas em Natal com expedições de cerca de 35 dias no atol.

A paixão pela conservação da natureza Zélia conta que herdou do pai e do avô, que trabalharam para o IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal): “Eu fui criada lá dentro, vivi minha infância inteira por lá, gostava de passar as férias do colégio com meu pai. Ele levava a gente para pescar, tomar banho em alto mar. Eu sempre fui peralta, sempre gostei de andar nas matas. Minhas irmãs eram mais estudiosas. Eu era diferente. Apegada ao meu pai, com muito orgulho do que ele fazia”. Aos 19, já estava trabalhando com o pai.

Aos 25, iniciava as expedições para o atol com o objetivo de combater a pesca ilegal: “Quando começou, dormíamos em barraca, sem energia, sem comunicação. Éramos um bando de conservacionistas no meio do mar, em um lugar inóspito. A gente puxava as redes que os pescadores deixavam no mar e ia salvando os bichos: peixes, tartarugas, tubarões”. Hoje, o ambiente ainda é selvagem, mas foi construída uma casa para abrigar o grupo de 3 a 5 pessoas que participa de expedições ao local. Toda alimentação e água potável precisa ser levada de barco, do continente, mas a casa já dispõe de energia solar e internet via satélite.

O banho ainda é no mar, mas o nível de conforto é outro. “Antes, eu não sabia se a minha família estava bem, se o barco ia conseguir ir me buscar. Se um pescador me matasse, ninguém ia saber. Quando voltávamos de alguma atividade, tinha caranguejo dentro da barraca! Hoje a casa é palafita, os bichos não sobem. Ter comunicação muda até o perfil do pesquisador que vai pra lá. Tem contato com o mundo, com Facebook, com redes sociais, com Netflix. É totalmente diferente. Ainda é um ambiente silvestre, mas antes nem todo mundo aguentava o isolamento, a questão psicológica”.

Não é porque está acostumada a viver em um ambiente tão selvagem que Zélia não tem medo de nada. Pelo contrário, ela admite que tem, por exemplo, medo de escuro. E como faz para superá-lo? “Eu ando com três lanternas à noite! Se uma estragar, ainda tenho duas. Se duas estragarem, ainda tenho uma”, conta. Para ela, a coragem é uma questão de estratégia: “Se tem medo de escorpião, ande calçado. Se não consegue andar 10 metros, ande 5, ou apenas 1, vá conhecendo os espaços”. Algumas vezes, ela admite que precisou buscar forças em si mesma, sozinha, rezando ou conversando com os animais.

Lutando pela preservação de um espaço tão isolado e remoto, já ouviu muitas ameaças ou gente dizendo “daqui a pouco você desiste”, mas não deixou de acreditar em si mesma e defender a natureza do local.

“Criei personagens para me fortalecer. Passei a ser conhecida como xerife do mar”

Ela comenta que muitas pessoas pensam que mulheres são mais frágeis ou “meigas”, mas nunca se deixou levar pelas dúvidas dos outros: “A gente não pode se diminuir. Pelo contrário, tem que valorizar”. Para ela, homens e mulheres têm capacidade de desenvolverem o trabalho que desejarem: “Antes, tinha mais homens pesquisadores. Hoje, tem cada vez mais mulheres”, observa. Se a força física nem sempre supera a dos homens, coragem as mulheres têm de sobra, certo?

Além do reconhecimento do atol como patrimônio da Unesco, uma das maiores recompensas que Zélia já recebeu pelo trabalho foi a iniciativa de pesquisadores que nomearam duas novas espécies em sua homenagem, a ascídia Polysyncraton maurizeliae e a porífera Clathrina zelinhae: “Eu deixo um legado de ter coibido a pesca e tentativas de turismo, de ter acompanhado estagiários que hoje são professores doutores e hoje são produtores que mandam seus alunos trabalharem comigo. Eu tenho uma história de 27 anos: a Zélia do atol, o atol da Zélia, fica até difícil de separar. Tem dois bichos no atol que receberam meu nome. Isso é um reconhecimento, além dos títulos internacionais que a unidade recebeu. Quando eu não estiver mais lá fisicamente, eu vou continuar através das espécies com meu nome que ocorrem naquele ambiente”. Uma vida de contato com a natureza em seu estado mais selvagem também é um presente: “O maior prêmio para a gente é estar lá”, celebra.

Que prêmio poderia ser maior do que dirigir a própria vida? Seja para trabalhar em um lugar remoto e selvagem, como Zélia, ou para permanecer no continente, com raízes bem firmes perto da família e das facilidades da vida na cidade, o que importa é escolher o caminho que mais faz sentido para a gente. Uma mulher com uma paixão tão imensa pela vida e pela natureza é pura inspiração para todas nós, mesmo que nossas jornadas sejam tão diferentes. Você também luta pelos sonhos, superando medos e vencendo obstáculos? Conte sua história pra gente nos comentários 🙂

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