Ela trabalha em grandes filmes enquanto batalha para que mais mulheres ganhem espaço.

Vera Egito, diretora e roteirista, soma conquistas na carreira com que começou a sonhar ainda adolescente

Na época do vestibular, Vera Egito sabia o que queria: passar na seleção da ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo). Não conseguiu na primeira tentativa, mas seguiu empenhada nos estudos. Até hoje, Vera lembra de uma conversa com uma amiga: “Ela se inscreveu para um curso mais tranquilo de entrar. Ela me via estudando o dia inteiro, então um dia ela disse: ‘eu nem tento algo assim porque sei que não vou passar’. Eu respondi: ’35 pessoas entram todo ano e eu não acho que sou pior do que elas’. Aí, ela me respondeu que outras 3 mil pessoas se inscreviam e não passavam, e que ela não conseguia pensar que poderia se sair melhor do que estas”.

A história ilustra um jeito de olhar para a vida e se enxergar no mundo: entre o grupo que entra e o grupo que fica de fora, em qual você se inspira?

A gente não pode cair nesse discurso de ‘não vou conseguir’. A gente ouve muitas coisas, mas tem que escolher dar ouvidos ao que te inspira, tentar ouvir a voz que te estimula, mesmo que seja a tua própria.

 

A amiga, ela lembra, convivia com comentários negativos dos próprios pais. Se a gente não pode escolher ou controlar as palavras que são ditas ao nosso redor, não quer dizer que precisamos dar ouvidos às que nos colocam para baixo, certo?

A dedicação aos estudos foi recompensada: Vera passou no vestibular no curso tão desejado na segunda tentativa. Hoje, é uma diretora e roteirista que tem no currículo filmes importantes do cinema nacional, como Elis, Serra Pelada e Amores Urbanos. Um marco importante da sua carreira foi ter sido considerada em Cannes, em 2009, como o “jovem talento promissor”, tendo dois curtas apresentados no Festival. Ela também dirige filmes publicitários e vídeos musicais, somando prêmios e conquistas ao longo de 12 anos de carreira.

Escolher uma realização de maior destaque? Impossível. “Minha carreira ainda é curta. Acho tudo muito importante ainda”, comenta. Como alguém que construiu sua trajetória a partir de um jeito próprio de olhar para mundo, Vera sabe que o sucesso também pode ser uma questão de ângulo: “Para mim, o conceito de dar certo sempre foi relativo. Eu sempre soube que estava seguindo o que gostava, o que me identificava. Acredito que fazer algo que te complementa já é um sucesso. É claro que a remuneração sempre foi uma questão, mas eu sempre trabalhei e, de uma forma ou de outra, as coisas aconteceram”.

Também seria impossível, para Vera, não reconhecer que suas conquistas podem ser um meio para batalhar por mais igualdade no mercado em que atua:”84% dos produtos audiovisuais são dirigidos por homens brancos. Isso quer dizer que as mulheres não batalham? Que as pessoas negras não batalham? Em todas as profissões, as mulheres ganham menos. As mulheres negras ganham menos ainda. Eu ainda tive acesso à educação, idiomas, tenho uma mãe feminista, pra mim ainda é mais fácil do que para outras mulheres.”, aponta. Não é à toa que

Vera preocupa-se em chamar outras mulheres para participar de suas equipes: “Existe o machismo invisível que faz a mulher se sentir desacreditada. Você apresenta uma ideia, ela não é aprovada, e você fica pensando que sua ideia não é boa. Em seguida, um homem apresenta algo muito parecido e ganha a oportunidade. Existe mais confiança na capacidade de realização de um homem do que de uma mulher. Quando a sociedade te desacredita, a tendência, é claro, é você ficar insegura”.

Ela sabe que, ao ocupar seu espaço, é também uma referência para outras que sonham em trabalhar com cinema: “Eu acho que tinha uns 11 ou 12 anos quando assisti ao filme Carlota Joaquina, da Carla Camurati, e lembro de ter achado incrível perceber que uma mulher era a diretora, foi uma sensação de que existia um caminho”. Com o tempo, é claro que a lista de referências de mulheres diretoras no Brasil e no Exterior foi crescendo.

As referências também vieram de casa: a paixão pela área Vera herdou do pai, fotógrafo. Ela conta que ela e os irmãos estavam sempre no estúdio, o que acabou tendo uma forte influência. Mas não foi só o amor pelas lentes que ela trouxe da infância: “Meu pai também era muito ligado à natureza, ele tinha um Jeep, fazíamos trilhas e ralis, fazíamos acampamentos em família, isso era uma coisa que eu gostava muito”. Estar em meio à natureza não é apenas divertir-se com animais e observar as plantas, é também uma oportunidade de conexão com as pessoas ao redor, de convivência intensa e direta, em um ritmo diferente do que vivemos na cidade.

Hoje, é claro, esse ritmo de vida é ainda mais acelerado. E a convivência, cada vez mais passa pelas telas de tablets e celulares do que pelo contato direto com as pessoas. Para a filha Glória, de 5 anos, Vera tentar preservar as oportunidades de convívio com o universo analógico da natureza e do relacionamento humano, sem radicalismos: “Não a incentivei a brincar com tablets e joguinhos. Eu sei que é inevitável, só não acho que seja a única opção de comunicação ou diversão, tento evitar que ela aprenda a se relacionar pelo virtual. Ela é muito ativa, gosta de brincar de tudo, de desenhar, correr, subir em árvore”.

Ter contato com objetos como livros, papéis e lápis de cor. Assistir a um filme como Branca de Neve, uma desenho animado de 1932 totalmente feito à mão. Para Vera, esses são momentos em que a filha pode se divertir e ao mesmo tempo se relacionar com a base analógica das coisas que foram digitalizadas. “No mundo das coisas que eu faço, acho que faz diferença entender a estrutura das coisas, de onde elas vieram. Tem pessoas que têm uma base e outras que são totalmente dependentes desse meio digital. E se acaba a bateria, o que a gente faz?”, ela provoca em tom divertido.

Vera Egito é uma das convidadas do talk show Petrobras De Carona com a Liv, em que a apresentadora-mirim de 5 anos conversa com mulheres inspiradoras que provam, com as suas carreiras, que não é só na infância que as meninas devem ter oportunidades de fazerem o que quiserem.

A conversa com a diretora é parte da campanha “Ela vai dirigir o que quiser”, em que a Liv também entrevista a piloto de corrida Cristina Rosito e a sócia de uma oficina mecânica Vanessa Martins. Com todas, a menina trocou ideias sobre brincadeiras e fez descobertas sobre profissões em áreas que são tradicionalmente consideradas mais masculinas. Para Vera, a experiência teve um sabor especial: “Fiquei muito feliz de conhecer a Liv e achei uma proposta muito divertida a de fazer esse bate-papo com uma criança, que tem a idade da minha filha, sobre o quanto uma menina pode fazer tudo o que ela quiser fazer e tudo o que ela se esforçar para fazer, dentro das possibilidades”.

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