Ela transformou a paixão por dirigir em trabalho e pilota um trator no interior de SP

Sany Kurahara virou motorista profissional depois dos 40 anos: já esteve à frente do caminhão de coleta de lixo da cidade e hoje é operadora de transbordo

Dirigir é liberdade, e Sany Kurahara sempre soube disso: aprendeu quando ainda era adolescente e tirou a carteira de motorista aos 19 anos. O que ela nunca imaginou, até se mudar para Pereira Barreto (SP), é que a diversão viria a se tornar profissão após os 40 anos de idade. Depois de morar em São Paulo, capital, e em Tóquio, no Japão, Sany foi viver com o pai e com a filha na cidade do interior e, ao procurar emprego, teve a ideia de trabalhar como motorista. E não foi em veículos leves que ela encontrou a realização: seu primeiro emprego por lá foi como operadora de trator, rebocando uma máquina no plantio da cana.

Vi a seleção para motorista. Achei que ia dirigir um carro. Cheguei lá e vi um trator. Eu nunca tinha dirigido um trator! Um instrutor me explicou o básico, dei uma voltinha e fui selecionada.”

Ela comenta que a empresa tinha, naquele momento, uma política de inclusão de mulheres em seus quadros, e acredita que por isso foi contratada mesmo sem estar totalmente pronta para a vaga. Aos 19 anos, tinha ouvido o conselho de uma amiga que sugeriu que, ao tirar carteira de habilitação, já buscasse a categoria C, que poderia lhe trazer possibilidades de trabalho no futuro. Mais de 20 anos depois, a dica trouxe frutos.

Ao final do contrato, encarou um novo desafio como motorista profissional: foi trabalhar conduzindo os veículos da coleta de lixo da cidade: “Nessa época, eu saía do caminhão sorrindo ao final do dia, porque muita gente vinha puxar conversa, me parabenizar, perguntar como era o trabalho, se eu achava difícil. Era uma parte muito gostosa do trabalho”.

Sany ficou algum tempo desempregada e depois, novamente, voltou ao campo. Hoje é operadora de transbordo: ela dirige uma espécie de trator no processo de colheita em plantações de cana. A rotina é puxada: ela acorda às 4h para pegar o ônibus às 5h30. Está de volta às 18h e, devido ao cansaço, dorme por volta das 20h30. A maior dificuldade? “Fazer as manobras corretamente para preservar a cana, já que aquela plantação pode nascer de novo”, responde. Ela tem orgulho de nunca ter sofrido nenhum acidente de trabalho e se considera uma operadora habilidosa.

 

Além de tudo, adora a vida no campo: “Depois de morar em São Paulo e, por mais de 11 anos, em Tóquio, é bom morar aqui. Gosto da paisagem, dos bichos – aqui tem até onça! Cada dia você trabalha em uma fazenda, e as pessoas são muito bacanas. Eu até poderia tentar voltar para São Paulo, mas nem penso nisso. Morar no interior é muito melhor para mim”, comenta.

Eu nunca imaginei que viveria disso, mas hoje dirigir é um prazer e ainda me dá o meu sustento”

Sany vive na companhia da filha, Natália, que cursa faculdade de Direito e do pai, Hiroshi, conhecido como Miguel, além da cachorrinha Julie, que nasceu no Japão há nove anos e veio para Brasil com Sany. Dois de seus irmãos moram no Japão. Trabalhar como motorista profissional nunca foi um plano de vida. Ela conta que foi algo que surgiu por necessidade e acabou dando certo. O fato de ter aprendido a dirigir ainda adolescente, ela acredita, fez a diferença. É por isso, também, que achou importante ensinar a filha a dirigir. “A coisa mais importante para mim é a independências que você tem dirigindo. Você pode ir para onde quiser e, além de tudo, como foi o meu caso, você pode viver disso. Eu nunca imaginei que viveria disso, mas hoje dirigir é um prazer e ainda me dá o meu sustento”, complementa.