Ela uniu as paixões por dirigir e por ajudar pessoas e se tornou motorista de ambulância

A possibilidade de salvar vidas é o que move Zena Felisberto, mesmo que o trabalho como condutora socorrista seja desafiador

Determinação não falta para Zenir Felisberto Pereira Strelow, natural de Araranguá (SC). Ela trabalha como condutora socorrista do SAMU, uma profissão pela qual é apaixonada há tanto tempo que nem consegue lembrar. A função une duas de suas maiores paixões: dirigir e ter a oportunidade de salvar vidas. Mais conhecida como Zena, a motorista faz questão de reforçar: “O mais importante de tudo é eu poder ajudar alguém”. Ela já trabalhou em banco, atuou como instrutora de trânsito e tem formação como técnica em enfermagem. Aos 50 anos, tem um sonho que ainda deseja realizar: participar como pilota em uma corrida de caminhões.

Ninguém duvida que ela chegue lá, já que Zena é daquelas pessoas que vai atrás do que quer, equilibrando as doses certas de persistência e paciência. “Eu sempre admirei quem dirigia. Sou de uma família de origem humilde. Meu pai teve carro, mas naquela época ainda se falava que mulher não dirigia. Minha mãe não dirigiu”, ela lembra, acrescentando que, entre os nove irmãos, apenas os homens contaram com lições do pai ao volante. As irmãs só se tornaram motoristas depois de adultas. Mas o desejo de assumir a direção sempre esteve lá: “Eu via eles dirigindo e achava o máximo. Eu dizia, para mim mesma, que um dia ainda ia aprender”.

Zena não estava olhando só por admiração: estava observando tudo que eles faziam, aprendendo. Um dia, já casada, aproveitou um dia em que o marido não estava em casa para colocar em prática aquilo que vinha estudando secretamente. “Fui até o mercado e voltei! Quando ele voltou, perguntou o que tinha acontecido. Eu contei que tinha aprendido só olhando. A partir daí, ele me incentivou muito, me orientava. Treinei, fui no Detran fazer a prova e passei de primeira!”.

Em 2005, veio a oportunidade de aproximar sua vida profissional do caminho que realmente desejava: Zena não perdeu a chance de se inscrever em um curso de bombeiros voluntários na sua cidade. “Fiquei três anos servindo voluntariamente. Eu já tinha ouvido que ia ter SAMU, que era o que eu queria”. Três anos depois, quando o serviço inaugurou em Torres (RS), cidade há cerca de 50 quilômetros de onde morava, ela não teve dúvida: participou da seleção e tornou-se a única mulher condutora socorrista daquela equipe.

A profissão é cheia de desafios. Ouvir comentários depreciativos de colegas ou até mesmo de pacientes em atendimento, infelizmente, faz parte das dificuldades. ”

Já aconteceu de chegarmos em uma ocorrência, eu, uma médica e uma enfermeira e nós ouvirmos coisas como “Nossa! São três mulheres! E agora?”. Tem que ser forte, mentalmente e fisicamente. Se eu fosse dar bola pra isso, que a gente ouve até de outras mulheres, hoje eu não estaria dirigindo uma ambulância do SAMU

É difícil também sair para um atendimento sem saber exatamente o que vai encontrar: “A gente não sabe quem vai atender. Pode ser um parente. Numa situação, fui atender a uma parada cardíaca no bairro onde minha mãe mora. Nunca sei o que me espera”. Mas o maior desafio mesmo para Zena é atender situações que envolvam crianças. E como ela encara esses momentos? “Eu acho que a vontade de ajudar, de salvar uma vida, é tão grande, que a gente supera isso”. O foco da condutora é total. Ela sabe o quanto o seu trabalho é importante, por isso não se deixa abalar pela tensão, medo ou desânimo: “Se não fosse gente com coragem para enfrentar essas situações, não teria ninguém para prestar socorro – todo mundo morreria”. Mas a vida na ambulância pode ter seus momentos de alegria: “A única coisa boa é quando a gente faz um parto!”.

Além da profissão, Zena orgulha-se também do filho, que seguiu seus passos e foi para a área da Saúde. Ele estuda Odontologia e gosta de dizer para a mãe o quanto admira seu trabalho. O ex-marido e o filho sempre a incentivaram a buscar seu sonho – e esse incentivo é o que Zena busca passar adiante. Quando atuou como instrutora de trânsito, atendia muitas mulheres que já estavam prestes a desistir da carteira de habilitação: “Conheço muitas histórias, e digo para mulheres que elas enfrentem e superem o medo, que não escutem quem diz que elas não vão conseguir. Se for o caso, paguem aula particular com outra mulher ou alguém que tenha paciência para ensinar.”

O medo, ela observa, muitas vezes é o medo de ocupar o espaço e levar o tempo ao qual cada um tem direito: “Você não pode dizer ‘ah, mas eu sou mulher e eles vão buzinar’. Todo mundo tem direito de aprender a usar a via. Os outros têm que esperar. Nós temos os mesmos direitos. Nós somos capazes. Não desista!”. Na sua profissão, Zena precisa andar com agilidade e responsabilidade, pois alguns segundos podem fazer diferença na hora de salvar uma vida. Na sua história, o que ela nos ensina é que, para alcançar nossos sonhos, precisamos às vezes ter paciência e respeitar nosso próprio tempo, avançando na velocidade possível, mas nunca desistindo do que queremos conquistar.

 

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