Ela vai para as aulas da faculdade de ônibus todas as manhãs, mas não é como passageira

Gilvanna Sauchuk é motorista e estudante de Farmácia e sonha em conciliar suas paixões profissionais

Gilvanna Sauchuk acorda todos os dias às 4h para pegar o ônibus e ir até a faculdade de Farmácia, que fica a cerca de 100 quilômetros de distância de Três Barras (SC), a cidade onde vive. Neste horário, Gilvanna está indo estudar, mas também já está trabalhando: ela sai de casa tão cedo porque precisa assumir o volante do coletivo que conduz cerca de 50 estudantes na ida e na volta da aula. “Meu primeiro passageiro eu pego às 4h40. Aí eu fico mais ou menos uma hora e meia juntando os alunos e, em torno de 6h20, pego a BR para me deslocar para outra cidade”, conta.

Bem-humorada, a condutora se diverte ao lembrar o espanto dos colegas no primeiro dia de aula: “Todo mundo começou a se apresentar, a contar que o pai tinha uma farmácia ou alguém da família tinha uma farmácia. Chegou a minha vez e eu disse ‘pois é, eu tenho 24 anos e sou motorista de ônibus’. A sala inteira virou para trás para me olhar”.

Feminilidade no volante

Aos 27 anos, Gilvanna credita parte do espanto à sua aparência. Ela é vaidosa e feminina, tem cabelos longos e loiros, pesa 50 kg e mede 1,70 m: “Algumas pessoas, ao me ver no banco do motorista, falam ‘Meu Deus, menina! Quantos anos você tem?’. Eu acho engraçado”. Maquiagem, unhas feitas e figurino bem ajustado são indispensáveis na rotina de Gilvanna, que acrescenta um toque extra de delicadeza ao seu local de trabalho com alguns bichinhos de pelúcia decorativos.

As reações de surpresa, hoje, vêm quando Gilvanna assume o volante em viagens de turismo: quando manobra e estaciona em postos de parada, sempre percebe os olhares e comentários de estranhamento. Das mulheres, conta que geralmente recebe apoio. Dos homens, nem sempre: “Já teve situações de homens dizerem que esse é serviço de homem, que lugar de mulher é em casa cozinhando para o marido. Uma vez, em uma oficina, eu estava com amigos e, ao chegar, expliquei ao mecânico o que tinha acontecido. Quando terminei de falar, ele disse que precisava falar com o motorista, não comigo”.

Superando o medo

Quem conhece a Gilvanna hoje, conduzindo com segurança e apaixonada pelo que faz, nem imagina, mas a motorista conta que teve muito medo quando foi fazer a primeira habilitação, aos 18 anos. Aos 21, recebeu o incentivo do marido, sócio da empresa de transporte, para mudar a categoria da habilitação e assumir veículos maiores:

“Eu tinha medo, muito medo. Eu chorava. Meu marido falava que eu precisava superar. Depois que consegui a habilitação, aí eu voei.”

Paixão por ajudar as pessoas

A paixão é tanta que Gilvanna não tem muita certeza do que vai fazer quando se formar em Farmácia. O que a motivou a entrar no curso? “Desde que era pequeninha, eu sempre brincava de carrinho ou com caixinhas vazias de remédio. Meu pai falava que eu seria a farmacêutica dele quando crescesse. Ele faleceu quando eu tinha 11 anos”, conta.
Batalhadora desde muito cedo, ela trabalhava como secretária quando concluiu o Ensino Médio. Na época, decidiu estudar Contabilidade. Logo viu que não era o que queria.

Quando decidiu estudar de novo, sentiu que era o momento de experimentar o curso de Farmácia: “Pensei que era a hora de realizar o sonho do meu pai. Hoje, eu vejo que é mesmo o meu mundo. Eu gosto de ajudar as pessoas e sinto que sendo farmacêutica eu poderei fazer isso. Mas não sei se vou trabalhar na área. Eu amo dirigir o ônibus. Tenho muita vontade de ter montar uma farmácia móvel e atender as pessoas em casa”.

Inspiração

Orgulhosa da profissão, Gilvanna conta que recentemente criou uma página no Facebook sobre a sua experiência como motorista. Depois que uma passageira fez um vídeo em que Gilvanna aparecia dirigindo, a motorista começou a receber muitas mensagens, principalmente de mulheres habilitadas que têm dificuldade para conseguir um emprego na área.

Ela incentiva as mulheres a irem atrás de seus sonhos, mas acredita que as empresas precisam fazer sua parte: “Se houvesse mais incentivo das empresas de transporte, seria uma coisa mais normal ver mulheres dirigindo. Acho que as empresas deveriam acolher mais mulheres, abrir vagas, ensinar. Nós temos muita paciência para aprender e muito mais calma no trânsito”.

O começo, ela sabe, nem sempre é fácil. Na primeira viagem que fez à frente do ônibus, Gilvanna reconhece que teve medo e ficava imaginando o que as pessoas pensariam se ela cometesse algum erro. Os braços doendo de tanto nervosismo. “Quando chegamos, todo mundo me deu parabéns. Falaram que havíamos feito uma ótima viagem, que foi muito bom. Na volta, já estava bem mais tranquila”, conta.

Para ela, a página Petrobras De Carona com Elas no Facebook serve de inspiração para muitas mulheres que têm vontade de dirigir, mas não encontram incentivo nas pessoas com quem convivem. Gilvanna é fã do projeto, acompanha os comentários das outras participantes e torce para que elas não desistam, que consigam assumir o volante que desejarem, seja de um carro, de um caminhão ou, como ela, de um ônibus.

Colocar a própria paixão na frente dos comentários negativos é o que dá energia para Gilvanna conquistar seu espaço. E você? Está dando ouvidos ao que te impulsiona em direção à vida que você quer viver?

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