Motorista de caminhão conta os desafios de ser mulher na profissão

Mirian dirige há 20 anos e chega a percorrer 600 quilômetros por dia

Mirian Alves Bandeira mora em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul – mas nem adianta planejar uma visita. Ela vive na estrada, a bordo do seu caminhão-tanque de nove eixos, que, por semanas a fio, é o que ela pode chamar de “casa”. É assim há pelo menos 20 anos, desde que deixou a carreira na enfermagem para seguir o seu coração. Depois de um breve período dirigindo ônibus de turismo e no transporte escolar, decidiu que seria caminhoneira. “Quem é motorista pode trabalhar em qualquer lugar e a estrada te chama. Está no sangue. Não tem jeito.”

Aos 46 anos, Mirian não tem pressa. E nem precisa. Respeitando a sinalização e o limite máximo da velocidade para veículos desse porte, ela chega a percorrer 600 quilômetros por dia – o equivalente à distância entre Belo Horizonte e São Paulo. “Precisamos trabalhar dentro do horário e respeitar jornada de trabalho. São regras bem rígidas, mas eu sigo certinho”, conta Mirian, que se orgulha de não ter nenhum acidente no currículo. Devagar e sempre, já ganhou até prêmio, em 2015, quando ficou em segundo lugar no Motorista Deztaque, da Petrobras, concorrendo com mais de dez mil motoristas – homens e mulheres. Um reconhecimento por ajudar reduzir o volume de combustível vazado, além do comportamento exemplar nas rodovias.

Ser mulher em um ambiente predominantemente masculino ainda é o maior obstáculo, mas Mirian tira de letra. Da infância trabalhando na roça, aprendeu as primeiras lições sobre feminismo. “Eu ajudava meu pai na roça, então já vim dali de um ambiente dominado por homens. Aprendi a bater de frente, você fica calejada. Eu me considero muito feminista.”

Hoje, ela incentiva outras mulheres que sonham em fazer o mesmo:

“Incentivo todas as mulheres. Não pode cortar o sonho da pessoa. O que desestimula é dizer que não vão conseguir.”

Na opinião dela, mulher também causa menos encrenca no trânsito. Parte importante disso é poder contar com o apoio da família e estar perto das pessoas que a colocam para cima. “A família é a base de tudo. Pra trabalhar com um veículo desse tamanho, tem que estar bem. Alguns motoristas vêm que eu sou mulher e já querem ultrapassar. Dá raiva, mas, se revidar, é aí que acontece a tragédia.” As filhas, gêmeas de 27 anos, moram em Campo Grande e mantêm contato com a mãe diariamente pelo celular.

Na transportadora, conheceu o segundo marido, também motorista e, hoje eles viajam juntos sempre que podem, cada um no seu caminhão. Juntos, decidem onde fazer as paradas, que nem sempre estão preparadas para atender às necessidades das mulheres. “Tem lugar que dá desespero quando chega, não tem nem banheiro, ou é muito sujo. Comida também, às vezes a comida é mais forte em um estado, no outro é mais fraco. Muda muito. Até o clima! Hoje a gente está no Paraná e de repente vai pra outro estado é outro clima, esquenta. E vai mais pra cima é mais quente ainda”, conta Mirian.

Apesar de ser apaixonada pela profissão que escolheu, a motorista faz uma crítica ao atual regime de remuneração da classe. “A gente tinha que ter salário normal. Não deveria ser por comissão, com essa pressão de chegar em 24 horas com a carga. Isso evitaria acidente, morte, prejuízo”, analisa.

Pode não ser a mais fácil, mas Mirian tem a certeza que escolheu a profissão que a faz feliz. E espera encontrar cada vez mais companheiras na estrada. “Pra mim não existe disputa. Temos que lutar para ter mais mulher na estrada, mais mulher motorista”, finaliza.

A história de Mirian e de outras onze mulheres serviram de inspiração para o calendário De Carona Com Elas 2018. O resultado, você já pode baixar no site.

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